HAPPY HALLOWEEN!!! Pra você que não comemora, mas tá sempre soltando as bruxas, ou você que, não é o van Helsing, mas, como todo brasileiro, tem que matar um lobo por dia! Todos nós temos um pouco de Halloween em nós mesmos, não é verdade? Ah, e que coincidência, pois a
trama de hoje fala exatamente disso!
Alice e Noel viajam até suas origens, uma pequena cidade interiorana, para ir ao casamento de Catarina, prima de ambos e uma das herdeiras da grande fortuna da família, fortuna essa a que foram negados ao serem banidos do convívio familiar por Avelino. No entanto, tudo pode mudar quando Catarina é misteriosamente assassinada, deixando, em seu testamento um estranho desafio: se Noel e Alice forem capazes de permanecerem na casa, herdarão todo o seu dinheiro!
Vocês lembram de
"Anti-heroí"? Aposto que sim, afinal, essa web foi a única esse ano a conseguir a nota 4.0 aqui da coluna! Realmente, uma boa história e em minha análise, expus todos os motivos pelos quais ela foi bem sucedida, na verdade, as três principais características: ambientação, enredo focado e dualidade psicológica. Podem imaginar então minha ansiedade em ler essa série, escrita pela mesma autora; como também, minha enorme decepção, ao ver minhas expectativas totalmente frustradas!
Acontece que, por mais paradoxal que pareça, “Gato preto” conseguiu falhar em todas as mesmas características que tornaram “Anti-herói” uma boa trama! O que nos leva a constatar a enorme evolução de Cristina durante o processo das duas obras.
E como meu propósito aqui é ver o crescimento dos autores, penso que nada melhor que estes dois exemplos para demonstrar que todos temos a capacidade de aprender e construir boas histórias. Por isso, farei algo diferente hoje: analisarei "gato preto" comparando-a lado a lado com sua sucessora, "Anti-heroi". Vamos lá?
Enredo focado
Uma da melhores características de uma trama é saber levar o leitor. Mas aí é que está: levar para onde? Você pegaria um táxi, por exemplo, se não soubesse para onde ele iria te direcionar? Não, não é mesmo? Do mesmo jeito é uma narrativa. O público precisa saber que está caminhando para um destino certo. E a forma pela qual fazemos isso é tendo um foco, um lugar para o qual toda as subtramas girem em torno ou se direcionem.
“Ah, Érika, isso quer dizer que não se pode ter mais de um tema ou mais de um bloco?”. É claro que pode, somente é preciso que tudo isso siga um mesmo direcionamento. Vejam o exemplo de Harry Potter: temos vários livros e aventuras diferentes, mas o que reúne todas elas em uma só? Sim, o bruxinho, que lentamente vai desenvolvendo-se, encontrando-se com seu passado e enfrentando seus medos, assim, a audiência sente que está tudo caminhando para uma certa direção.
E no caso desta trama, o enredo promete uma disputa entre Alice e Alessandro pela herança deixada pela prima, com os parentes de Alice tentando a todo momento sabotar sua estadia na casa, no entanto, logo, o foco se perde totalmente entre casos de agressões cometidos por Avelino e no grande mistério do assassino. Nesse ponto a permanência na mansão já perde toda a importância e a falta de carisma dos personagens junto a apatia da protagonista não consegue formar um tema central. Diferente de "anti-herói" em que Nilo era a grande força motivadora daquela universo, movendo a história conforme seu crescimento como personagem.
Dualidade psicológica
Um dos maiores erros em fazer personagens redondos, ou seja, personagens com mais camadas, ou mais “reais”, vamos dizer assim, é acabar por transformar todos eles em loucos necessitando de camisa de força! E isso aconteça muito, devido a imaturidade em usar este recurso. Uma persona que parecia comum ou até mesmo boa mata sem nenhum tipo de remorso, sem qualquer explicação para isso, claro; vilões sádicos se convertem em verdadeiros anjos no final da história e tudo com a permissão do “Ah, meus personagens são complexos!”.
Mas há uma enorme diferença entre ter uma personalidade própria, cheia de nuances e humores, há ter diversas personalidades! Os psiquiatras que o digam!
E nisso Gato preto escorrega com maestria, fazendo com que seus envolvidos tenham diversos tipos de personalidade a todo momento. Chega a ser impossível acompanhar as evoluções psicológicas deles. Alessandro mesmo, esta sempre do lado do pai e mostra-se até sádico ao rir das maldades que eles cometem contra alice, no entanto, no final, a autora quer colocá-lo como quase um mocinho, apaixonado pela mesma. Impossível de engolir!
Ambientação
E por fim, uma das características em que “Anti-herói” mais se destacou: os tons sombrios da cidade, o olhar triste do protagonista sendo representado pelos objetos e paisagens, que nos faziam mergulhar naquele universo e no mundo interior do mocinho.Em “Gato Preto”, todavia, as descrições são frias, quase como um check list de um mercado: “uma cadeira marrom, cinco poltronas ao lado, um telefone vermelho, leite e manteiga... não esqueça do arroz”...
É preciso entender que ambientar não é somente dizer o que está no local, mas dar vida a esses elementos, pois não é somente uma sala, mas como o narrador ou o próprio personagem vê aquela sala, caso contrário era só colocar a foto e ficava mais fácil! (não vou dar ideia!).
A descrição psicológica, tão bem feita na outra história também é perdida. Além da confusão de humores desses personagens, a autora falha em nos dizer o que se passa no mundo interior de cada um. Suas interações, relações e conflitos um com o outro, cheias de adrenalina na série passada, agora são robóticas e não incitam qualquer emoção. Não preciso sem comentar sobre o romance de Walter e Alice né, mais sem sal que comida para hipertenso!
O enredo também é confuso, e o leitor passa a maior parte do tempo tentando entender as relações entre os personagens, eu até agora não sei se entendi quem é parente de quem kkkk. A estrutura também é fraca, pois coloca mazinho dizendo a Alice que Noel colocou drogas na bolsa de Alessandro, coisa que, se simplesmente tivesse dito e denunciado a dez anos atrás, nada daquilo teria acontecido! O Texto também não consegue dar razões plausíveis para a decisão de Catarina de lançar aquele desafio no testamento ao invés de somente deixar a herança para os dois primos.
Enfim, se por um lado, temos os tons cinzas e tristes de um protagonista solitário em uma cidade arruinada, mas que ganha cores e vida em cenas cheias de emoção e adrenalina impressionantes, por outro, temos uma trama que pretende ser quente, mas que acaba mesmo congelando qualquer expectativa!
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