Se tem algo que todo brasileiro lembra era o que estava fazendo no dia 8 de julho de 2014, o dia da terrível e avassaladora goleada que sofremos da Alemanha. Perdermos em nosso próprio solo e da maneira mais categórica: 7 vezes a bola entrou sem que pudéssemos fazer nada, apenas assistir, impotentes. Eu não via o jogo, trancada em meu quarto, mas posso dizer que meu coração murchava a cada grito de gol vindo da tv da sala. Meu pai, agoniado, desligou o aparelho, única ação que estava a seu alcance, mas não efetiva para combater o ocorrido. Mas teve uma pessoa que continuou assistindo a tudo até o fim: minha irmã. Perguntei a ela depois como ela pôde aguentar ver aquilo?
Ela sempre amou esporte, desde pequena gostava de acompanhar os jogos, acordava de madrugada para assistir as partidas; Nunca me esquecerei da final do jogo de vôlei, em que o time feminino perdeu por muito pouco e pude ver nela a frustração dolorosa achando que ela desistiria de torcer, mas no ano seguinte lá estava ela novamente. E então ela me disse algo que nunca esqueci: pra ter alegria na vitória é preciso acompanhar as derrotas.
Hoje estamos em copa, mas é perceptível que o brasileiro que pintava as ruas, alçava bandeiras nas janelas e gritava pelo hexa tem diminuindo com o tempo; E há um outro fenômeno curioso: os daqueles que torcem contra o país. Eles chegam até mesmo a vestir a camisa de uma seleção adversária. Algo realmente incompreensível e revoltante aos primeiros olhos mas que revela o sintoma de um problema muito maior.
E isso nos leva para importância do futebol para a nossa narrativa nacional; Uma narrativa nada mais é que a história que contamos para o mundo e para nós sobre nós mesmos, ela nos fala de nossos princípios, valores e conquistas como um povo. Mas no caso do Brasil ela sempre foi muito confusa, não temos uma ode às conquistas dos desbravadores como é o “Os Lusíadas” de Portugal ou uma tradição de revolução cultural como a Itália; Somos um país colonizado, mistura de povos indígenas, colonização e vinda de povos estrangeiros. Claro que há conquistas, mas dispersas, nenhuma delas nos determina, nos diz, “nós fizemos isso”, “nós somos isso”. Quando perguntado sobre o que é o Brasil provavelmente irão dizer “Carnaval”, “caipirinha”, “cristo redentor”, reparem, são coisas, eventos, não possuem o caráter de uma integração do país. Mas não quando se trata do futebol.
Somos o país pentacampeão, temos o maior número de taças de um campeonato mundial, distintos e admirados pelo mundo por algo conquistado em conjunto. Sendo assim, é de se espantar que voltaríamos nossos sentimentos para o único setor em que não somente ganhávamos como éramos ídolos mundiais? O futebol não é somente um campeonato, é nossa ilíada.
O brasileiro pode não saber a história dos presidentes, mas sabe a escalação de 58, por isso a pressão da seleção é como a de nenhum outro país enfrentou, pois ela carrega o peso de sustentar talvez a única forma de alegria e orgulho que o brasileiro sente em sua nacionalidade. E agora que o vemos sendo também tirado de nós preferimos não torcer ou vestirmos a camisa de uma outra nação por medo de apostar em algo que nos desapontará.
Esta é a verdadeira tragédia. Não é perder no futebol, é depender de sua vitória.
Mas, seria justo este sentimento? Claro que não podemos negar os problemas enfrentados pela nação, mas se olharmos para situações que outros países enfrentam como cerceamento de direitos básicos, miséria extrema, guerra, imigração em massa, economia em declínio, vemos que toda nação passa ou passou por momentos de intensa crise e instabilidade, veja a situação da Alemanha após a primeira guerra mundial, como se encontrava a Coreia do sul depois de anos de invasão japonesa, mas estes infortúnios não as fizeram perder a crença em si. Da mesma forma como já houve o tempo em que o Brasil era referência de país próspero e o local em que muitos buscaram seu abrigo.
Foi então que finalmente entendi o que minha irmã tinha entendido há muito tempo: todas as nações que um dia se levantaram das crises tiveram um dia que assistir a derrocata de seus países, com a autoestima destruída tiveram que reconstruir os escombros, criar caminhos onde já não havia mais nada. E isso só foi possível porque um dia admitiram que tinham perdido.
Mas ao contrário delas, a nação brasileira, seja por sentir-se impotente ou impossibilitada de levantar-se contra problemas estruturais e tão complexos, refugiou-se no futebol. É por isso que o 7x1 foi tão traumático, por isso que levanta calafrios em todos os que o mencionam até hoje, porque estampa um sentimento que procuramos por tanto tempo ignorar.
Diante disso, depois de 8 anos enfim encarei meu medo e neste domingo assisti ao jogo Brasil vs Noruega, sem indiferença, mas torcendo, acreditando e vi os jogadores ajoelhados em campo, chorando. Mas eu já tinha aprendido a lição e ao contrário do sentimento de tristeza que pensei que teria vi no lugar esperança. Agora, pela primeira vez em anos, o refúgio que buscamos para nos sentirmos vitoriosos se desmontou e podemos ver a realidade crua, encarar o que muitas nações viram.
O que faremos a partir disso é o que nos definirá.
Notas
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