ADOROWEB - ATRAVÉS DA MINHA JANELA: A CENA MAIS BIZARRA QUE JÁ LI!



Domingo à noite e você decide assistir um filme na NETFLIX, um romance despretensioso, que provavelmente será mais um clichê romântico. Eis que a história começa e você já estranha, o que são esses personagens com atitudes tão incompreensíveis? Você não faz ideia do porque fazem o que fazem ou dizem o que dizem, até que a primeira cena de sexo aparece e ela é mais detalhista que uma exame no gineco, e são muitas, uma atrás da outra, no filme todo, a partir daí, cenas e cenas se apresentam mas sem levar a lugar algum, até que a coisa mais bizarra se desenrola a sua frente. Confundido e assustado, não entende o que acontece, até descobrir que se trata de uma adaptação do whatpadd. Está tudo explicado.

Autor(a): Ariana Godoy
Ano: 2016
“Através da minha janela” é uma obra escrita por Ariana Godoy em 2016 que, após alcançar a impressionante marca de 354 milhões de leituras, teve a alegria de ser publicada e de ver sua versão cinematográfica estrear esse ano na plataforma de filmes. E o sucesso foi tão grande que mais 2 longas já foram confirmados.

Ela conta a história de Raquel, vizinha há anos dos Hidalgo, uma importante e muito rica família da qual saíram 3 belos filhos homens: Artemis, Ares e Apolo. E a autora explica aí a obcessão dos pais com os deuses gregos. (Eu já achei que era aquelas famílias em que todos os filhos tem que começar com a mesma letra!) Porém, de todos eles, é sobre Ares que a atenção de Raquel é devotada e, quando falo em atenção, quero dizer mesmo! Sabe aquele vizinho estranho que te olha da janela do outro prédio? Imagine agora que ele não somente te olha, como sabe tudo sobre você, inclusive seus horários de almoço, cursos extra curriculares, e sua data de menstruação e quando você abre a galeria do cara, há dezenas de fotos suas nas mais diversas atividades. Essa é Raquel. Bem, se isso te lembrou algum episódio do investigação criminal é mera coincidência, pois aqui isso é tido como algo fofo. Coisa de Whatpadd, né gente.

Afinal, se trata de uma trama de amor, não é; Mas, como um moço rico e bonito irá apaixonar pela vizinha pobre que, além de não ter nenhum atrativo, demonstra ter sérios problemas psicológicos de obsessão e provavelmente tem um boneco vodoo dele embaixo do travesseiro? Essa é a pergunta que a narrativa apresenta e é essa mesma que ela nunca responde!

 Em nenhum momento, em toda esta história entendemos os motivos da aproximação destes dois. Em primeiro lugar, o enredo força estes encontros ao máximo, cenas após cena dos dois encontrando-se por acaso em lugares ou seguindo o outro até o cemitério, sim, o cara prefere fumar em cima das tumbas, nada estranho. O problema, no entanto, é que nada funciona para os aproximar, pelo contrário, os diálogos são rasos e superficiais, como quando ele a enfrenta e diz que sabe tudo sobre o hábito dela o espionar constantemente; esperaríamos então um reação de raiva, mas logo, do nada, ele pede um beijo dela. What??

As motivações dos personagens são completamente confusas neste enredo, pois, ao mesmo tempo que o mocinho diz não querer algo sério com a garota, ele vai atrás dela, e poderia ser porque ele está em conflito consigo mesmo, afinal, ele tem trauma com relacionamentos, mas, novamente nunca foi dado qualquer razão para ele gostar dela, bem pelo oposto, dessa forma, a mudança de sentimentos que ele diz estar sofrendo não tem motivo nenhum para ter acontecido. Ao mesmo tempo, Raquel sempre soube que Ares não queria se comprometer, mas é só os dois dormirem na mesma cama uma noite e ele a tocar que a menina já está escolhendo o véu, quando ele a rejeita, então, ela cria um drama tremendo sobre ter sido “usada”, sendo que ele já tinha dito várias vezes que não gostava dela. Convenhamos, a não ser que o dedo dele tivesse o poder de criar um elo sentimental, não teria outra forma disso terminar.

E aqui é a deixa pra eu falar da cena mais bizarra e nojenta que eu já li em toda minha vida! Raquel acaba embebedando sem querer o irmão menor de Ares, Apolo e para não aparecer com ele bêbado o leva para sua casa. Ela o coloca na cama, somente de cueca e inconsciente, e de repente, o irmão mais velho aparece. Os dois discutem, no entanto, isso aparentemente deixa Ares com calor, porque ele tira a camisa sem motivo algum. De repente, ele resolve que é melhor dormir ali mesmo e se deita na cama. Raquel o segue e se coloca entre os dois irmãos. É quando Ares, com o irmão menor dormindo de cueca ao lado, usa uma mão para apertar a de Apolo e a outra para “tocar o sino pequenino” da protagonista. Se isso não é material para uma boa terapia eu não sei o que é! ECA!

Já vimos aqui que o diazepan em dia é um MUST para estes personagens, por isso não poderíamos esperar uma relação saudável destes dois, nada no envolvimento deles tem sentido, mas, ao menos poderíamos ter um enredo, todavia, tudo o que esta história faz é juntar os dois de novo e de novo, seja para brigar ou para protagonizar cenas de sexo descritivas e incessantes e crises de ciúmes aqui e acolá. Ou seja, a história não possui um objetivo ou nenhum desenvolvimento para os personagens que nunca aprendem nada ou crescem nesta obra. Raquel é uma protagonista rasa e apática e Ares não mostra motivos críveis para as mudanças que diz ter.

Eu consigo ver um esforço da autora em tentar dar peso e  drama à narrativa, mas o problema é que a base de tudo é muito fraca, como o desejo de Ares de ser médico, ao qual sua família se opõe; Não há um grande sofrimento ou luta até a resolução do dilema, o problema é resolvido de pronto quando o avô chega e convence o filho a deixar Ares estudar o que quiser. A escritora também tenta criar uma estrutura familiar complicada, com o passado da mãe que traia o pai e com as personalidades dos irmãos, mas nada disso tem qualquer consequência na estrutura familiar e age apenas como a justificativa para o comportamento indiferente do galã. Nunca há realmente um conflito ou dificuldade, portanto, nada acontece, somente a constante tentativa da autora de responder a pergunta central, sem sucesso.

E quando achamos que a falta de assunto não podia ser maior, eis que a trama resolve dar uma de “sexo sentido” e lançar um plot twist. Acontece que o primeiro encontro dos dois, quando ela o confronta por ter roubado sua senha do wi-fi foi, na verdade planejado por ele, como uma vingança por ela o espionar. O problema é que nada disso faz sentido, pois ele nunca chega a fazer nada para prejudicá-la, até que o enredo dá a entender que ele também a espionava e portanto também a amava desde sempre, e bem, se isso não tem importância alguma para este enredo vazio, ao menos explica a conexão do casal: os dois são malucos.

Ao final, a obra não consiga nunca entregar uma história, mas sim, uma fantasia febril para a garota que quer se ver na protagonista e ter o rapaz rico e perfeito como pretendente, e nisso  de fato, ela possui seu charme, na atmosfera que cria ao redor da família Hidalgo, pena que mal aproveitada, mas é inegável seu sucesso perante as milhares de leitoras ao redor do mundo. Portanto, se você curte cenas de sexo narradas pelo Galvão Bueno:

 Como se soubesse o que quero, ele começa a mover-se lentamente... Ó Deus, a sensação é incrível, nunca senti nada assim em minha vida inteira. Dentro, fora, dentro, fora...

E se gosta de monólogos enormes e vazios sobre a vida, provindos de uma garota que não possui nenhum hobby que não seja stalkear o vizinho, esta narrativa é um prato cheio pra você!

 Mas, cá entre nós, eu sugeriria o filme, é mais rápido. 

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Notas 

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2. Este quadro não tem como intuito rebaixar ou menosprezar qualquer autor ou obra, mas sim, de abrir um diálogo em prol da qualidade literária.

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