Você já se perguntou porque pessoas andam de montanha-russa? Ou saltam em queda livre? A milhares de quilômetros do chão, sustentados por finas madeiras empileiradas ou pelo impulso do vento sobre o pano eriçado, a linha tênue entre a vida e a morte é propositalmente desafiada.
É conhecido que o instinto mais primário na raça humana e o que nos fez sobreviver até os dias de hoje é o medo da morte; para evitá-la, o ser humano passou a morar em cavernas, a construir casas e desenvolver meios de proteção; a indústria farmacêutica é a que mais cresce, movida pela ânsia em se estar saudável e nas produções de todos os tipos, a morte representa a tragédia, o fim para o personagem. Sendo assim, o que explicaria a busca por colocar-se mais próximo da morte? Afinal, porque corremos riscos?Sim, pois, pelo princípio inerente, o lógico seria habitarmos para sempre em nossas cavernas, nos preocupando apenas em nos alimentarmos e reproduzirmos, cada passo para fora seria considerado um ato irracional de suicídio; o mundo seria o mais rudimental possível, é certo, mas muito mais numeroso, nos excetuando todas as mortes por guerras, expansões e doenças. Todavia, a história nos mostra o contrário, permeada de atos heróicos em que pessoas sacrificaram até mesmo suas próprias vidas para alcançarem um objetivo.
E isso porque, a razão de temermos a morte não está na dor de seu processo, ou pela dúvida do que virá depois dela, mas pelo desejo que temos pela vida. Afinal, o que é a morte se não a interrupção da vida? O estado absoluto da falta de ação, consciência e significado? Nele, nada sentimos, pensamos ou criamos. Ser é estar em pleno movimento, seja em nosso desenvolvimento diante do mundo ou como o influenciamos, assim, ao corrermos riscos, nos colocamos no extremo oposto da falta de ação e dessa forma, quão mais perto da morte estamos, paradoxalmente mais longe nos colocamos dela e mais vivos nos sentimos. Portanto, é do constante amálgamo entre o medo da morte e o desejo pela vida que se constitui o verdadeiro viver, o único que nos pode encher de significado e felicidade. Sem isso, então, estar vivo ou morto torna-se apenas uma afirmação fisiológica, pois, para a alma, a morte pode acontecer até mesmo em vida. E quando a vida torna-se um fardo pior que a morte é que muitos não exitam em livrar-se dela, através do suicídio.
Pois, aparte aos que se jogam nos ares ou nos trilhos, existem os muitos que apenas assistem. Paralisados pelo medo, veem-se observando as engrenagens, analisando as estatísticas de acidentes, e passam a vida dentro de suas cavernas.
Qual seria o segredo então, para sobrepujar o medo da morte e experienciar o verdadeiro viver?
O segredo encontra-se na fé.
A fé, descrita pelos evangelhos, é a certeza das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem. Todavia, esse "não ver" não significa algo irreal, e sim, algo que se sabe mas ainda não é avistado. Vivemos em um planeta pequeno, perto aos gigantes de gelo e calor, em uma galáxia minúscula junto a tantas outras no universo; mais um pouco perto do sol, derreteríamos; distantes, a vida sequer seria possível. Como podemos acordar e ir trabalhar todos os dias sem nos apavorarmos com a possibilidade real de um meteoro cair sobre nós? Ou de um tsunami invadir a cidade, destruindo tudo em seu caminho?
E isso mostra que a vida em si só já um grande risco. No entanto, não nos damos conta dele porque vivemos em um constante estado de fé. A fé não se trata de ser ignorante das más possibilidades; sabemos da existência das catástrofes, dos acidentes, das mortes, mas conseguimos viver apesar disso, pela fé de que eles não irão acontecer. E o que pode parecer, á primeira vista, uma loucura otimista, revela-se, na verdade, como nossa melhor aposta.
Pois, expostos aos perigos inerentes da própria experiência de se estar vivo, ainda corremos o risco de a anularmos por completo pelo medo de perder o que, ao fazer isto, já perdemos. Viver acreditando que o meteoro não irá cair pode soar loucura, mas não viver pelo medo que ele caia é que não faz nenhum sentido.
Como muitos, já temi a montanha russa e não conseguia entender seu apelo; ao me colocar naqueles trilhos pela primeira vez, não poderia pensar em sensação pior; sentir-se longe do chão apenas sustentada por duas míseras barras enquanto é levada sem saber a direção. Mas ao vê-la mover-se, compreendi que não havia volta, eu já estava sobre os trilhos, assim, me entreguei, ainda que fechando os olhos e meu estômago encheu-se do mais terrível pavor ao perder o completo contato com a gravidade, descendo disparadamente a quilômetros de altura, no entanto, assim que minhas costas tocaram a cadeira, percebi que ainda estava ali. E então, me vi diante de duas opções, terminar as voltas em extremo pavor, ou, confiar, abrir os olhos e aproveitar a viagem.
Foi então que enfim pude compreender a graça de uma montanha russa e a graça da vida. Quando confiamos nos seus processos, pela fé, é que então podemos vivenciar a alegria que existe nela.
Charlie Chaplin uma vez disse: "mais inevitável que a morte é a vida". Ao que digo que, mais inevitável ainda é o risco, afinal, o maior risco que podemos ter é o de não correr risco nenhum.

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