É conhecido, hoje que vivemos em um mundo globalizado, a constante gama de informações que nos acometem todos os dias, seja por mídias sociais, abertas ou escritas, fazendo com que seja quase impossível não formar alguma opinião sobre um assunto. Assim, inevitavelmente, acabamos nos inserindo em certos círculos que, representam nosso modo de pensar, sejam eles, páginas de internet, movimentos ou até mesmo partidos políticos. Mas, meu propósito com este artigo não é de maneira nenhuma apontar isso como um problema e muito menos dizer qual o melhor jeito de ver o mundo, mas de apontar um grave dilema, visto hoje em toda a arte contemporânea: a arte engajada.
Podemos observar
em toda a arte hoje produzida, a moda do “discurso engajado” ou “de protesto”,
que se classifica como a utilização da arte para expressar uma certa corrente
de pensamento, e que praticamente tomou todo o modo de pensar atualmente. Tanto
em webs virtuais, novelas como em qualquer outra produção, os autores ou a
mídia divulgadora exaltam os assuntos que a obra irá tratar antes mesmo de
apresentar a sinopse, como em séries como “Cara gente branca” por exemplo. Suas
chamadas promocionais e até mesmo suas críticas, baseiam-se muito mais na
“irreverência do tema” ou na intitulada “importância para a sociedade” do que na
qualidade da obra em si.
Isso porque,
hoje, a mensagem ou o assunto retratado tornou-se mais importante do que a
forma pela qual a obra o apresenta, uma verdadeira inversão do que realmente é
a arte. É claro que, definir o que seja a arte não é tarefa fácil e muito menos
será realizada aqui, o que proponho, portanto, não é levantar a questão sobre o
que consideramos como arte ou não, e sim, como a estamos vendo e usando hoje em
dia.
Você vai ao
cinema, em sua mente já sabe o que deseja: bom enredo, personagens bem
desenvolvidos e emoção, ao invés, encontra uma história vazia e cheia de
chavões, com péssimo diálogo e atuações fraquíssimas. Chegando em casa, escreve
um post no facebook, expressando sua decepção, e eis que de repente é confrontado
com diversos comentários em tons altos e raivosos como: “Racista”, “misógino”,
“lugar de fala”, “privilégio”...
Perplexo, você se pergunta o que aconteceu, pois estava apenas falando
de um filme.
Acontece que
o filme tratava de um assunto político, como o feminismo, por exemplo, assim,
criticar o filme, aos adeptos dessa ideologia, mostrasse como instantaneamente
colocar-se contra ela. Como acontecido no fracassado Ghostbusters (2016),
fraquíssimo em termos técnicos, mas que colocou a culpa de seu baixo número em
bilheteria no “machismo” e “racismo sistêmico” do público, pois o longa possuía
protagonistas mulheres e negras, ignorando completamente que temos tido
mulheres e negros como principais em filmes de altíssimo sucesso, como Mulher
maravilha e MIB por exemplo.
Da mesma
forma, quando nos deparamos com bons filmes, irrepreensíveis no que se diz
respeito ao trabalho de escrita, direção e etc, mas que não trazem algum tipo
de requerimento ou crítica quanto a sociedade ou inserção de grupos
representativos políticos como LGBTs, somente uma história com bom enredo e
desenvolvimento, vemos um ataque agressivo da mídia e blogs incessantemente a
condenar o filme com os mesmos termos antes mostrados.
O que fica
claro então nos dois exemplos apontados é que, para estes grupos, os requisitos
técnicos, a arte bem-feita, já não importa em absoluto, e sim, a mensagem que
ela irá transmitir para a sociedade. Assim como, qualquer produção que não
contenha os traços do discurso do que chamamos de “politicamente correto” deve
ser rechaçado e banido, como já vem acontecendo em muitos casos.
Chegamos ao
ponto hoje de ter “E o vento levou”, um clássico, ganhador de 10 oscars, e referência
para o cinema mundial, censurado por, pasmem, “mostrar uma visão atenuada da
escravidão”! Ou seja, uma história baseada na época em que a escravidão era
considerada tão comum como ser um carteiro, e pelo qual a primeira mulher negra
ganhou sua indicação ao oscar, é acusado de ser racista!
Ao fim, não se
trata mais de encantar o público com uma bela história, de produzir boa música
ou captar a fotografia perfeita, mas de servir ao discurso seleto de um grupo
elitizado, sem rosto, mas que se personifica nas falas de cada apresentador de
Tv e nas palavras de cada artigo de jornal. Como em uma inquisição moderna, mas
desta vez, sem julgamento, apenas a sentença categórica, onipotente, que te
coloca ou como um gênio absoluto ou como um nazista desgraçado!
Não se
enganem, a arte sempre possui uma ideologia, os grandes escritores, de fato,
serviram a lideres políticos, e usaram seu talento para influenciar a política
de sua época. Mas o que fez sua arte ultrapassar seu tempo, ser lida e imitada
por diversos autores e emocionar a todos até o dia de hoje, é que ela era muito
maior que sua mensagem.
Você pode
não entender os requerimentos sociais ou as ideias políticas que Virgílio
tinha, afinal, hoje vivemos em tempos distintos, mas isso não te impedirá de se
encantar com a saga de Eneias em Troia. (Lhe soa familiar?); ou mesmo que não
concorde com a visão socialista revolucionária de “O poço”, ainda poderá se
impressionar com a experiência aterrorizante do longa. Pois a verdade é que o
talento não possui ideologias.
No entanto, quando
críticos escolhem o discurso politizado em detrimento da boa obra, retirando
estrelas e pontuações somente por não conter sua própria visão de mundo, o que
estão fazendo é criar um terrível padrão em que transforma a arte, antes
veículo de beleza e reflexões humanas que ultrapassa línguas e chega sem
barreiras a todos os corações, em apenas um cavalete, feito para pendurar as
propagandas do governo e das grandes empresas, mera propaganda, em nada
diferente de uma palestra ou um textão no facebook.
E assim, ao
invés de autores temos ideólogos, propagandistas vazios e escritores rasos que,
com o passar do tempo, quando suas reivindicações não fizerem mais sentido,
terão suas obras condenadas ao esquecimento, talvez, como um registro
histórico, semelhante a um selo ou achado arqueológico, que não evoca qualquer
sentimento ou emoção.
Não deixemos
que isso aconteça.
Virgílio era
maior que sua política, porque amava a poesia e a beleza acima dela. Ora, a
primeira é passageira, sempre muda, sempre oscila, enquanto que as últimas
nunca deixam de perder o valor divino, por isso Virgilio vive até os dias de
hoje. Jesus disse que, aonde quer que estivesse o coração do homem ali estava
seu tesouro. Cabe, então a nós escolhermos os elogios presentes ou a glória
eterna.
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